“Não faltou quem avisasse para esta crise”

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7 de Junho de 2011 por wesleycoresma

D. Manuel Clemente, bispo do Porto, diz que os portugueses têm de viver de forma mais modesta e acredita que ainda estão para chegar os sacrifícios

Correio da Manhã – Portugal vive actualmente uma das crises mais graves da sua democracia. Na sua opinião, qual deve ser o papel da Igreja neste contexto?

D. Manuel Clemente – Costuma dizer-se – e é também um mandato – que o papel da Igreja é alimentar a esperança, e não alimentá-la de uma maneira muito exterior às coisas, mas exactamente por dentro delas. Não encontramos melhor radicação da vida portuguesa do que esta rede de paróquias que temos espalhadas de norte a sul. Portanto, é uma proximidade muito grande, que é mais do que uma proximidade, é uma presença, uma inserção, e alimenta-se a esperança do dia-a-dia, porque as coisas, como aparecem, são sempre muito macro, muito standard, ao passo que, nesse acontecer das comunidades, coisas difíceis, coisas boas estão lá todos os dias.

– Mas tem defendido que tem de haver uma maior intervenção.

– A este nível, até por uma razão muito simples: se formos a qualquer comunidade cristã, encontramos lá praticamente todas as simpatias ideológicas e partidárias, umas mais do que outras. De maneira que é muito difícil concretizar isto, e sempre que se tem tentado encarreirar a pertença eclesial para um significado político específico não dá, e as desilusões são muito grandes.

– Há um sentimento de fracasso na sociedade portuguesa que pode, inclusive, levar a actos de violência?

– É a tal história da decadência. Que em Portugal tem tendência a agudizar-se porque todos nós transportamos na nossa memória colectiva – às vezes muito pouco explicitada, mas está cá – a lembrança de que já fomos muito grandes. E, portanto, custa mais ser pequeno para quem tem essa lembrança. E vivemos mal connosco. Nunca nos conseguimos realizar.

– Somos eternos insatisfeitos?

– Creio que sim. Isso é irremediável para a tal alma portuguesa.

– Voltando à crise: tem sido um crítico particularmente perspicaz da cultura pós-moderna, ou, como diz o Papa Bento XVI, da “ditadura do relativismo” no Ocidente. Qual foi o contributo desta cultura para os descontentamentos económicos e financeiros que vivemos?

– É muito grande porque dessolidariza. O que é típico da pós-modernidade, falando muito em geral, é que, sobretudo a Europa, deixou de acreditar nos grandes colectivos, nos grandes desígnios universais, já não tanto do ponto de vista religioso, mas do ponto de vista ideológico. Estamos a pagar facturas da Segunda Guerra mundial e do que aconteceu depois.

– O Estado, as empresas e as famílias foram-se endividando para lá de tudo aquilo que é sustentável. Acha que os agentes políticos, as elites, deviam ter tido um outro comportamento?

– Com certeza. E vamos lá ver, não faltou quem avisasse. Tenho alguns amigos na área da economia que, conversássemos o que conversássemos, pelo menos de há dez anos a esta parte, a conversa ia sempre parar a ‘nada disso é possível se não resolvermos o défice’, constantemente.

– Então porquê esta aberta caminhada à voragem do crédito e para o abismo?

– Não sei, isso aí não sei responder, tão patente era a situação. Também para mim isso é um enigma e gostaria de ter a resposta completa. Julgo que era tão insistentemente dito e repetido por tanta gente, mas demorou tanto a ser referido por quem devia.

– Provavelmente, não sei se concordará, porque as pessoas estavam mais interessadas em ouvir–se a si próprias e ao seu umbigo do que propriamente…

– Isso em qualquer época, até por razões pessoais. Ninguém está disposto a descer assim abruptamente de um patamar que foi alcandorado. Criou um certo tipo de vida e um certo tipo de parecença, portanto, uma maneira de estar na sociedade, da qual não se desiste rapidamente.

– Os excessos de que fala levaram–nos, sem grande surpresa, a ter de recorrer à ajuda externa. Tendo em conta os exemplos da Irlanda e da Grécia, que consequências é que antevê a nível económico e social para Portugal num futuro próximo?

– Há algo em que, mesmo não sendo economista – mas estou minimamente atento àquilo que as pessoas dizem -, se repara: teremos todos de viver mais modestamente, e isso terá de ser mesmo global, porque se não for, e se não nos incentivarmos mutuamente nesse sentido com mais convicção, então as tais discrepâncias sociais podem agudizar-se. Julgo que toda a gente percebe que temos um caminho estreito, que os meios são muito menos e, por isso, não pode ser da mesma maneira, a poupança tem de crescer com aquilo que houver para poupar – já não sei bem onde – mas os gastos têm de ser muito menos.

– Os sacrifícios até agora pedidos não foram feitos com equidade?

– É muito difícil responder. Creio que ainda estamos no princípio no que diz respeito aos tais sacrifícios. Há muitas carências, mas essas já existiam há dois, três ou quatro anos. Agora, os sacrifícios novos, passe o termo, esses estão para vir.

– O pedido de ajuda externa já deveria ter sido feito há mais tempo?

– Atendendo àquilo que nos vão dizendo, chega-se a essa conclusão. Mas a este propósito queria abrir mais o horizonte. Hoje, fala-se em crise, mas dá-me ideia de que a crise define o País e a sociedade portuguesa. Tenho dificuldade em acreditar num tempo ou verificar uma época em que a crise não tenha estado aberta ou latente.

– Viremo-nos agora para alguns dos casos de pedofilia que envolveram membros da Igreja Católica. Deveria ter havido, por parte da hierarquia da Igreja, mais intransigência e transparência na punição destes casos?

– Toda a definição e toda a prevenção são poucas. São questões particularmente complicadas quando acontecem em instituições que a verdade que transportam é exactamente o contrário disso, ou seja, é o respeito pela pessoa humana. Por isso, se pergunta se deveria haver mais prevenção, está aí o facto, devia.

– De que forma?

– Estando mais atento, tanto quanto se pode estar, o que nem sempre é fácil definir, nem muito menos definir imediatamente.

– As últimas legislaturas trouxeram a liberalização do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. É uma herança demasiado pesada?

– Por outro lado, demasiado frágil. Não acho de maneira nenhuma que a questão do aborto esteja resolvida em Portugal, pelo contrário. Temos um preceito constitucional de promoção da vida. A vida é entendida em si mesma como um processo, desdobramento de potencialidades. Portanto, dizer três dias e tal não é legítimo, três meses e cinco dias já é, no outro dia toca o sino já é um dia a mais, não pode ser, é completamente arbitrário.

– Não é difícil imaginar que nas próximas legislaturas se vai discutir a adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Como vê esta possibilidade?

– Creio que, como já aconteceu em relação ao casamento de pessoas do mesmo sexo, precisamos de ser claros no que estamos a dizer. É completamente arbitrário o facto de a humanidade se manifestar complementarmente entre masculino e feminino? Se isto é essencial, não é a mesma coisa um casamento entre pessoas de sexo diferente e, naturalmente – é uma palavra que hoje não está muito em moda -, segundo a natureza das coisas, como elas se manifestam, depois terão filhos, e não é a mesma coisa entre pessoas do mesmo sexo, não é. Não sendo a mesma coisa, vai-se usar a mesma palavra? Então as palavras já não querem dizer nada.

– É apenas um problema de terminologia?

– Não, depois é um problema jurídico. Porque se não é a mesma coisa não deve ter o mesmo tipo de ordenamento.

CAMPANHA TEM DE SER CLARA

CM – Estamos a aproximar-nos de novas eleições legislativas no País. Neste momento difícil, gostaria de fazer passar alguma mensagem aos candidatos e aos respectivos partidos?

D. Manuel Clemente – Gostaria de reforçar aquilo que até pessoalmente já lhes tenho dito nalguns encontros: temos de ser todos muito sérios, muito claros, muito convictos e muito solidários, até nesta primeira solidariedade que é escutarmo-nos mutuamente. Ninguém tem a razão toda, o problema é muito complexo, é muito importante, até com pedagogia social, que nos envolva, nos comprometa, que os vários candidatos sejam claros, se oiçam, que tudo corra com uma urbanidade que faça disto uma urbe, uma cidade de todos, isso é muito importante. Depois, com tudo aquilo que é a exactidão dos números e das previsões, e destes contornos internacionais que sobre nós impendem. Portanto, espero que seja tudo muito claro e que nós cresçamos com o exercício democrático.

– Será possível acreditar que vai existir essa urbanidade a que faz apelo?

– Olhe, eu acredito na medida em que faço por isso [risos]. Como sou cristão, sou da religião do verbo encarnado, portanto, é uma palavra, mas verificada na prática.

“CONFERÊNCIA EPISCOPAL DEVE ESTAR NO SUL”

CM – Entre 2 e 5 de Maio, vão decorrer as eleições para a Conferência Episcopal Portuguesa. Nas últimas eleições, foi o mais votado, mas recusou o cargo por não estar nem há um ano como bispo do Porto. Se voltar a ser nomeado, está disponível para o cargo?

– Primeiro, tenho de desmentir, isso propagou-se mas não é verdade, não fui o mais votado.

– Então onde se foi buscar essa ideia?

– Não sei. Li isso, mas não foi assim que a coisa aconteceu.

– De qualquer forma, qual é a sua disponibilidade?

– A nossa disponibilidade para os cargos que nos são dados é geral, com certeza, mas neste momento acho claramente que a Conferência Episcopal deve estar no Sul. Esteve dois mandatos no Norte e acho que agora ficava muito bem lá para o Sul, para a zona de Lisboa.

– Em 2009, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa. D. José Policarpo afirmou que no seu lugar não aceitaria o prémio. Não estranhou a declaração?

– Pelo que conheço de D. José Policarpo e, enfim, fomos muito próximos durante mais de 30 anos, tais afirmações que ele faz dão sempre muito que pensar e, portanto, alguma razão teria para as fazer, e eu respeito muito a sua opinião.

– Ele afirmou que desconfiaria da atribuição deste prémio. O que é que havia para desconfiar?

– Não sei dizer porque nunca lhe perguntei.

“NUNCA FOI DITO QUE ERA MELHOR INFECTAR ALGUÉM”

CM – Relativamente ao uso do preservativo, Bento XVI já veio colocar a hipótese de…

– Vamos lá ver, nunca na Igreja se disse que era melhor infectar alguém do que usar preservativo, não se põem as coisas nesse limite.

– Sim, mas nunca antes se admitiu taxativamente, como fez Bento XVI, o seu uso. Poderá esta nova posição provocar uma revolução naquilo que tem sido defendido pela Igreja Católica?

– A sexualidade não é qualquer coisa que aconteça fora de nós, somos nós na nossa relação com os outros, que no caso concreto daquilo que comummente se chama sexualidade tem essa dimensão também genital. Agora, é sempre uma pessoa que está em causa e é por isso que como outras tradições filosóficas e humanistas a Igreja lembra. Depois, há as questões prudenciais, e aí a consciência tem de estar instruída, educada e deitar mão daquilo que for mais justo. E é, nesse sentido, que o Papa se pronunciou. Entre infectar alguém ou usar um preservativo, a escolha é óbvia.

PERFIL

D. Manuel clemente tem 62 anos e é natural de Torres Vedras. Licenciado em História na Faculdade de Letras de Lisboa, ingressou no Seminário Maior dos Olivais em 1973.

Em 1979, licenciou-se em Teologia pela Universidade Católica e doutorou-se em Teologia Histórica em 1992. Desde 1975, lecciona História da Igreja na Universidade Católica. É bispo do Porto desde 2007. Recebeu o Prémio Pessoa 2009 e já foi distinguido com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo.  Fonte: Blog: wesleycoresma.wordpress.com ) Com informação do Correio da manha)

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