Ex trapalhão, Dedé relembra os momentos de dor durante internação

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24 de Junho de 2011 por wesleycoresma

Depois de passar dez dias internado no Hospital Barra D’Or por conta de uma diverticulite no intestino grosso, Dedé Santana voltou aos estúdios do Projac para gravar “As Aventuras do Didi” na última quarta-feira, 15. Na manhã de quinta-feira, 16, antes de entrar para mais um dia de gravação, o humorista recebeu a equipe de reportagem do UOL para uma entrevista exclusiva. Dedé chegou apenas 15 minutos após o horário marcado, mas pediu desculpa pelo atraso. “No meio do caminho, encontrei com o (diretor) Guto Franco e tive que parar para falar com ele. Nos conhecemos há muitos anos e tenho um carinho enorme por ele. Guto é filho do Moacyr Franco”, explica. A entrevista começou e Dedé relembrou a época em que ficou doente e chegou a ser internado no CTI. “O pior momento foi quando recebi a notícia que estava com diverticulite. Lembrei logo do (político) Tancredo Neves, que morreu assim. Pensei que não iria mais ver meus filhos”, lembra ele, que é pai de oito.

Dedé começou a passar mal no dia 27 de maio, durante uma gravação do humorístico. “Tinha uma cena em que eu caía e o Didi [Renato Aragão] me levantava. A crise começou na queda. Renato percebeu que eu não estava bem e me levantou com cuidado. Eu estava tonto e saí do Projac direto para o hospital”, diz. Apesar de ter sido muito bem tratado na unidade, o humorista afirmou que não guarda boas recordações do local. “Lembrança de hospital nunca é boa. Me colocaram com uma equipe médica de primeira, mas eu não quero voltar pra lá não. Era cano enfiado em tudo quanto é lugar. Até em buraco que nunca conheci nesses meus 75 anos de existência”, rememorou, aos risos. Passado o susto, Dedé mostrou que a internação não o fez perder o bom humor.

Você ficou no CTI, mas passou a maior parte do tempo consciente. Como eram os seus dias?
Dedé – No começo estava inconsciente porque fiquei com anemia. Mas é horrível estar consciente porque você não pode se mexer. Fiquei sem comer e sem beber água por dias. Apenas molhavam a minha boca com um algodão. Quando eu lembro, me dá até sede. Ficar consciente é ruim porque a gente vê muita coisa. Vê gente morrendo… Mas também me emocionei porque tinha um senhor que me viu e falou com a enfermeira: “Puxa… O Dedé… Meu Deus… Eu vou orar por ele”. E ele estava muito pior do que eu, com câncer em estágio terminal. Quando fui fazer exames, ele disse pra enfermeira: “Graças a Deus o Dedé saiu…”. E a enfermeira respondeu que eu só estava indo fazer um exame e já ia voltar.

Qual foi o pior momento?
Dedé – O pior momento foi quando pensei que não iria mais ver meus filhos. Tenho oito filhos e oito netos. Tenho três filhos em Santa Catarina com a minha mulher, Christiane Bublitz, que são os mais novos. O nome de todos eu lembro, mas as idades… Sou pai do Átila, Ayede, Ayesca, Aimê, Manfried Júnior, Marcos, Yasmin e Maria Leone, que é a mais velha.

Então você pensou na possibilidade de morrer?
Dedé – Dei uma fraquejada algumas vezes. Quando o médico me disse que era diverticulite, me lembrei do Tancredo Neves, que morreu com essa doença. Mas o apoio que eu tive da Globo foi fundamental.

Você se tornou evangélico em 1995 por causa de um problema no coração. Como a religião te ajudou em sua última internação?
Dedé – Quando me converti, eu era da Assembleia de Deus. Hoje sou membro da Igreja Quadrangular. Sempre que eu posso eu vou à igreja. Me converti por problemas cardíacos. Fiz todos os exames agora no hospital e meu coração não tem nada. Meu único problema doi mesmo a diverticulite no intestino grosso. Me converti também porque eu era muito maluco, muito mulherengo e tal. Agora isso mudou. sou uma pessoa totalmente dedicada à minha família.

Você é pastor?
Dedé – Não sou pastor. Ser pastor é um chamado especial de Deus e eu não tive esse chamado.

Tem medo da morte?
Dedé – Não tenho medo da morte não. Ela é uma consequência da vida.

Qual foi a primeira coisa que você fez ao chegar em casa?
Dedé – Fui correr atrás dos meus filhos. Eu não estava acreditando que estava chegando em casa. Foi incrível. Meu filho Marquinhos apareceiu com umas manchas e foi internado em um hospital lá em Santa Catarina. Minha mulher queria vir pra cá ficar comigo e eu dizia que não precisava porque já ia ter alta. Quando ela me ligou avisando que o Marquinhos estava bem, eu disse: “Então vem pra cá porque acho que eu vou demorar a ter alta”. Ela quase me matou.

Você recebeu muitas mensagens positivas de fãs enquanto esteve internado. Acha que essa energia ajudou na sua recuperação?
Dedé – A energia das pessoas chegou até mim. Minha saída do hospital fui fruto de muita oração. Tinha muita gente orando por mim. Aliás, gostaria de agradecer porque não pensei que eu fosse tão querido assim… Principalmente pela classe circense, que me mandava e-mails e me telefonavam. E também recebi muito apoio da classe artística. O Sérgio Mallandro foi me visitar. O Tiririca me ligou de Brasília. O Renato Aragão foi me ver. Ele era o mais preocupado de todos.

O que você pediria hoje a Deus?
Dedé – Queria viver mais um pouquinho. Minha filha Yasmin tem 14 anos e queria vê-la chegar aos 20. A Yasmin, que está em Santa Catarina, quer seguir a carreira artística. Tentei tirar todos os meus filhos da arte. Porque a gente sofre muito. É uma vida muito instável. Entre a prole, cada um tem o seu negócio, toca suas coisas. Mas a Yasmin quer ser atriz de todo o jeito. Eu falei que ela precisa primeiro estudar e ela disse que vai ser como o Renato Aragão: advogada e atriz.

Você não ficou com ciúme da sua filha se espelhar no Renato Aragão e não no pai?
Dedé – De jeito nenhum. Yasmin sempre me pediu para trabalhar com o Didi. Eu explicava que era questão de contrato. Eu estava no SBT e ele na Globo. Mas Renato e eu nunca ficamos sem nos falar. A gente se ligava no Natal, nos aniversários e nas outras datas importantes.

Como está sua rotina hoje?
Dedé – Tomo só um remédio que tem ferro. Digo que estou tomando ferro. É meio esquisito de falar, né? [risos]. Fora isso, não tenho restrição nenhuma. Moro em Itajaí, no Sul, e venho para o Rio às terças-feiras. Gravo no Projac às quartas e quintas e, na sexta, volto para Santa Catarina. Tenho muitos amigos que são donos de circo lá e, às vezes, me apresento nos sábados e domingos. O público levanta, fica de pé para me ver. Faço tudo normal. Hoje mesmo dei uma corrida na praia antes de vir cá. De carro, é claro… [risos].

Como foi voltar a gravar?
Dedé – Foi maravilhoso. Minha volta foi emocionante porque meu camarim estava com muitas flores enviadas pela equipe do programa. Eu não sabia que era tão querido entre o pessoal.

Você veio de uma família circense. Sua estreia no circo aconteceu com apenas três meses de vida. Conte o que você sabe sobre essa estreia.
Dedé – Diz meu pai que foi o meu primeiro aplauso. Antigamente, tinha uma mistura de circo com teatro. Na apresentação, fiz uma peça chamada “A Cabana do Pai Tomás”. Minha mãe fazia uma escrava e ficava com um bebê nos braços. Quem fazia era um boneco, mas como eu estava lá, meu pai resolveu me colocar no colo dela, que fazia uma escrava. Na hora em que me tirariam do colo dela, estava tudo preparado para um LP tocar um choro de criança. Mas nem precisou usar. Quando me tiraram do colo da minha mãe, eu chorei e os artistas começaram a rir. O público chorava e não entendia. Aí, meu pai explicou que havia um disco para tocar com um choro de bebê.

Sua família é descendente de ciganos. De onde saiu o nome Manfried?
Dedé – É um nome alemão. Tenho sangue de alemão por parte de um amigo íntimo do meu pai. Não sei se você entendeu… [risos]

Juro que não. Me explica, por favor?
Dedé – É que a minha mãe, quando estava no hospital para me ter, precisava de uma transfusão de sangue e a única pessoa que tinha sangue compatível era esse alemão, Manfried. Meu pai resolveu homenagear o moço pelo seu gesto.

O que Renato Aragão representa na sua vida?
Dedé – Nós começamos juntos. Até me emociono porque tudo começou com a dupla Dedé e Didi, em 1965. O amigo é um presente que a gente nos dá. E o Didi é um grande presente meu. Consegui realizar dois grandes sonhos da minha vida através dele. Eu vinha do circo. Ele escrevia muito bem. Eu queria muito dirigir cinema. Eu fiz curso, trabalhei em edição, dirigi um filme em preto e branco em São Paulo, mas não tinha dirigido um filme grande. Um dia, o Renato me disse que eu ia dirigir “Os Trapalhões e o Mágico de Oroz” [1984]. Dei muita sorte porque foi um  dos mais elogiados. Aliás, o primeiro beijo da Xuxa no cinema foi comigo. Eu era noivo dela nesse filme. Foi boca a boca.

E foi bom?
Dedé – Nem me lembro. Eu estava nervoso. Ela também. Chovia muito. Era uma cena chovendo.

Foi um “beijo técnico”?
Dedé – Eu nem sei o que é que foi [risos].

Como era na época em que “Os Trapalhões” era exibido na TV? Você sente saudade do Zacarias e do Mussum?
Dedé – Era maravilhoso. Com o Didi, ninguém podia chegar de mau humor. Se eu chegasse, em 15 minutos, já estava rindo com ele. Digo que o único ator dos Trapalhões era o Zacarias. Didi e Dedé sabem os truques de fazer rir. E Mussum era um comediante nato. Ele fazia piadas no tempo, fora do tempo e todo mundo ria. A gente ria em cena.

Além da direção de “Os Trapalhões e o Mágico de Oroz”, qual foi o outro grande presente que o Renato Aragão te deu?
Dedé – O outro foi a minha volta para a Globo. Um dia, em 2008, ele me ligou e perguntou se eu gostaria de voltar. Respondi que sim e ele me disse que ia tentar porque não era o dono da Globo. Passou um dia, e ele não ligou. E eu naquela ansiedade. Depois, ele me ligou e disse que tinha uma notícia não muito boa. Eu disse: “Tá. O importante é que você tentou”. E Ele: “Não. A notícia é que você já está contratado pela Globo e está recebendo seu salário desde o dia primeiro”. E já era dia 20.

Falando em contrato, até quando vai o seu contrato com a Globo?
Dedé – Eles chamam de contrato permanente. Nele, há um cláusula que diz que, se eu quiser sair da emissora, preciso avisar com um ano de antecedência. E se eles quiserem me dispensar também avisam um ano antes. Mas estou muito feliz aqui. Como moro no Sul, eles dão passagem para o Rio e fico hospedado em um hotel cinco estrelas. A emissora é fora de série.

Por que você foi para Santa Catarina?
Dedé – Fui trabalhar no Beto Carrero World. Fiquei seis anos trabalhando com o Beto. E o Sul tem uma qualidade de vida muito boa. Moro em Itajaí, numa casa boa, na beira da praia e me acostumei muito com aquela vida ali. Só sinto falta das feiras,que lá não tem. Eu adoro ir à feira e sinto falta disso. Quando morava aqui eu ia muito às feiras livres.

O que você acha do atual humor brasileiro? Que programas você assiste?
Dedé – O humor brasileiro mudou muito. Hoje eu assisto a programas como “A Grande Família”  e “Tapas e Beijos”, que acho sensacional. Também amo “A Mulher Invisível”. Débora Falabella e Luana Piovani estão maravilhosas no seriado.

Na sua opinião, quem é o grande humorista da atualidade?
Dedé – isso é muito particular, mas sou fã do Tiririca. Acho que ele é uma mistura de Costinha com Dercy Gonçalves. Acho que até agora ele não se achou… [risos].

Não? Ele está em Brasília!
Dedé – Agora é que ele se perdeu porque foi ser conselheiro da Dilma [risos]. Mas ele tem se esforçado muito pela cultura. Ele pediu que eu desse uma mão para ele no setor circense porque o circo no Brasil está muito abandonado.

Você se arrepende de alguma coisa que tenha feito?
Dedé – Acho que não. Cheguei onde eu consegui chegar com o apoio do público. Se não fosse o público, talvez não estivesse aqui hoje, O público me ajudou a criar meus 8 filhos, indo aos cinemas ver os filmes dos Trapalhões. Nós ficamos muito tempo entre as dez maiores bilheterias de cinema no Brasil na década de 80 e a gente deve muito ao Renato Aragão. Cheguei a dirigir três filmes seguidos na época das férias escolares.

O que mudou na sua vida após sua passagem pelo CTI?
Dedé – Hoje dou muito valor para as pequenas coisas. Às vezes, uma visita a um amigo se torna imprescindível.Gosto de sair com os amigos para jantar.

Data: 18/6/2011
Fonte: UOL

Via: www.guiame.com.br

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