É errado usar Bíblias eletrônicas para leituras pessoais e na igreja?

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11 de Novembro de 2011 por wesleycoresma

Quando cheguei à Índia nos anos noventa para fazer missões, tudo ainda era muito simples, naquela época, para receber o sustento financeiro que era enviado do Brasil, gastava-se um dia inteiro no banco. Era preciso entrar numa fila, ter o nome e detalhes do cartão de crédito escritos em um enorme livro, depois recebíamos uma moeda de bronze com um número referente à nossa solicitação de dinheiro. Depois de ter escrito todos os detalhes, era então enviado um telegrama para Cingapura com a solicitação do dinheiro e ficávamos aguardando a resposta de Cingapura para então serem preenchidos todos os detalhes nos formulários e o dinheiro então liberado. Se algum erro ocorresse, um número mal escrito, então a operação tinha de ser refeita e podia até ser deixada para ser concluída no dia seguinte. Quando abriu o primeiro caixa eletrônico na Índia, viajávamos até trinta e seis horas para poder receber o dinheiro. Certamente que nos anos anteriores eram ainda mais complicados, mas esta foi à Índia que encontrei.

Na mesma ocasião as cartas levavam até trinta dias para chegar ao destino, e mais trinta para se obter a resposta, nós nos alegrávamos quando chegava alguma revista com algumas notícias da “terrinha”, muitas vezes notícias ultrapassadas, já desmentidas ou refeitas, mas que para nós ali, era como se lêssemos as notícias fresquinhas, aquela era a época do aparelho de FAX, o auge da modernidade. Depois veio o e-mail, que lá funcionava assim, se enviássemos o e-mail entre dez da manhã e cinco da tarde, o e-mail chegava no mesmo dia, se não, chegava no dia seguinte, se fosse uma sexta-feira, chegaria na segunda ou no próximo dia útil, no caso de feriado. Uma tia minha muito querida faleceu, e só fui saber um mês depois, era a vida, a urgência não existia. Urgência era luxo!

Os tempos foram mudando e logo a tecnologia se espalhou, quando deixamos a Índia em 2002, o país já era outro, havia caixas eletrônicos em todos os lugares, internet cafés, e mesmo as cartas já não levam mais que dez dias, é a popularização da urgência. Hoje através de sistema como MSN e SKYPE, falamos e vemos as pessoas do outro lado do mundo praticamente de graça, e tantas outras coisas que existem por ai e vamos descobrindo a cada dia.

No entanto, a tecnologia revolucionou não só a comunicação e a economia, mas praticamente todos os setores da sociedade estão de alguma forma atrelados à tecnologia. Em nossa escola de formação teológica temos algumas aulas por meio de vídeo conferência com o professor nos Estados Unidos a ensinar e a interagir com os alunos aqui em Portugal. Recentemente dei uma palestra para um grupo de missionários em Angola, via vídeo conferência, estando eu aqui em Portugal.

Mesmo os cultos, estão praticamente dependentes em seu desempenho, da tecnologia. O hino, as músicas, às apresentações e por vezes até a pregação depende da tecnologia. Isto não significa, que sem essas coisas não sejamos capazes de cultuar, não é isto, certamente que se estas coisas não existirem mais ou falharem, continuaremos a adorar a Deus, mas refiro-me a presença marcante da tecnologia na adoração comunitária. A presença de dispositivos eletrônicos nos púlpitos também passou a ser comum, as Bíblias eletrônicas instaladas nos celulares, os computadores portáteis e os tablets passaram a ser ferramentas úteis.

O computador é uma ferramenta útil para o pastor, na preparação do sermão, estudo ou pesquisa. A praticidade da utilização dos comentários bíblicos, dos léxicos, e tantos outros recursos podem ajudar-nos a enriquecer ainda mais nossa mensagem e fortalecer nosso conhecimento. O pastor só perde, e perde muito, se copiar mensagens e estudos feitos e disponíveis na internet, evitando assim o trabalho de preparar ele mesmo o sermão. Quem faz isto, em pouco tempo se tornará superficial na pregação, inseguro e confuso na sua exposição, e obviamente, tão logo alguém perceba que suas mensagens são plagiadas, cairá em descrédito com sua congregação, e infelizmente, conheço alguns casos destes. A tecnologia é apenas uma ferramenta útil que facilitou nossa pesquisa, mas o trabalho pessoal de buscar no texto o seu verdadeiro sentido e sua aplicação prática, regada com oração, ainda é fundamental. O coração faminto do pregador, que percorre a palavra de Deus em busca do alimento necessário para a sua alma e para o seu rebanho é insubstituível.

Não há nada demais se alguém lê uma Bíblia de papel e tinta ou se a lê no seu telefone celular, tablet ou computador. A Palavra de Deus, não é o papel e a tinta, o livro em si, mas a sua mensagem. Esta mensagem pode estar num livro, numa página da Internet, num aplicativo de telefone ou tablet, e terá sempre o mesmo valor diante de Deus e o mesmo impacto no homem. É uma questão de gosto, uns querem o livro, onde possam marcar com canetas coloridas, outros preferem fazer o mesmo, mas eletronicamente, e não há nada de mal nisto. Mesmo na pregação, uns pastores gostam de pregar sem anotações, outros gostam de escrever a mão em folhas ou cartões os seus sermões, outros gostam de utilizar sistemas visuais, como PowerPoint e outros, gostam de ler suas anotações diretamente de um dispositivo eletrônico, e também não há nada de mal nisto.

A comunicação e acesso a Palavra de Deus ao longo da história teve suas alterações, sem nunca prejudicar seu conteúdo e verdade, em todas as gerações ela foi suficiente para libertar e alimentar o coração do homem. No passado, antes da escrita, o conhecimento de Deus era algo comunicado oralmente através de histórias e princípios, exemplos simples podem ser observados na Bíblia, como a oferta de Caim e Abel a Deus (Genesis 4), muito antes dos textos de Êxodo e Levítico, serem escritos. Mais adiante temos toda a trajetória dos patriarcas que também foram fiéis a Deus numa época onde a Palavra de Deus não havia ainda sido escrita, e inclusive vemos Abraão entregando o dízimo a Melquisedeque (Genesis 14), mesmo antes dos ensinos sobre o dízimo serem escritos. Em Jó, temos a sua narrativa sobre como o conhecimento que ele tinha de Deus havia chegado até ele, pelo ouvir (Jó 42:5). Já mais adiante, após a escrita, e devemos observar que a primeira palavra de Deus escrita não foi em formato de livro, nem em papel, mas em placas de pedras (Êxodo 31:18), o povo tinha acesso a palavra de Deus de uma forma mais específica, isto é, através de um narrador do texto, não era um contador de histórias ou princípios, mas de um narrador, que em posse do texto, fazia a sua leitura diante do povo (Josué 8:34), pois além de não ser possível na ocasião ter cópias completas da Palavra de Deus, poucos eram capazes de escrever e ler. Num período mais

posterior, surgiram os escribas, homens que eram responsáveis por transcrever a Palavra de Deus, termo que aparece pela primeira vez em Esdras, mas há indicações de que o ofício era posterior ao de Esdras. Na época dos escribas, os reis, governantes ou pessoas ricas e algumas autoridades religiosas tinha o privilégio de ter cópias completas ou parciais da Palavra de Deus, que eram escritas em pedras ou placas de barro ou pergaminhos (pele de ovelha ou cordeiro). O pergaminho era o formato mais comum das Escrituras nos dias de Jesus e que era utilizado pelas sinagogas daqueles dias.

Antes mesmo do pergaminho, surgiu o papiro, que era feito de uma planta e passava por um longo processo até chegar ao seu estado final. O papiro pronto era, então, enrolado a uma vareta de madeira ou marfim para criar o rolo que seria usado na escrita, foi neste formato que uma parte da versão mais antiga da Bíblia foi encontrada no Mar Morto. E mais adiante surge então o papel, inventado pelos chineses por volta do ano 100 d.C., no entanto, a Bíblia só veio a ser escrita em papel por volta do Século IV, num documento conhecido como Codex Sianiticus. Já no formato de papel impresso a Bíblia surgiu com Johann Gutenberg em 1455, e levou cinco anos para ser concluída, e vinha em dois volumes. Depois da Bíblia impressa em papel, surgiu a Bíblia em formato de áudio e depois no formato digital com a revolução eletrônica, e hoje está disponível em vários formatos e para diferentes equipamentos.

É importante observar que o formato da Bíblia nunca foi sacralizado, nem mesmo na sua língua original, diga-se de passagem, que a Bíblia é o único livro religioso do mundo que tem o mesmo valor em qualquer que seja a sua versão lingüística e seja qual for o seu formato. Os cristãos não sacralizaram um livro, ou um formato, mas sim, temos como santa a Palavra de Deus que é a sua mensagem comunicada ao homem.

Nesta breve narrativa, que começou com uma breve e simples descrição do avanço da tecnologia, temos por objetivo mostrar que não precisamos olhar com maus olhos quando alguém ao invés de abrir a Bíblia num determinado texto, ele acessa o mesmo texto no seu telefone, tablet ou computador. Nem precisamos temer quando um pregador ao invés de utilizar papel, faz uso de um dispositivo eletrônico. Eu gosto dos dispositivos eletrônicos, e sempre que for possível farei uso destes seja na vida privada ou no exercício do ministério. Leio a Bíblia todos os dias no meu tablet, preparo os sermões no meu computador, e em cada três livros que leio, um está no formato eletrônico, há um ano que não imprimo uma folha de papel para estudos ou sermões, está tudo no tablet. Aproximadamente 98% de todas as minhas comunicações são em formato eletrônico, mesmo minhas cartas e informativos. Nada disto me tornou superficial ou frio, pelo contrário, me aproximou mais das pessoas, com a velocidade da comunicação, aumentou meu conhecimento com o acesso rápido às informações e acredito que a igreja que pastoreio ganhou com a qualidade. E no que diz respeito a natureza, é uma forma limpa de comunicar, em um ano economizei aproximadamente cinco mil folhas de papel entre textos e cartas, e mais algumas milhares com a utilização de livros no formato eletrônico.

Meu interesse não é motivá-lo a optar pelo formato eletrônico, escolha o que mais gostar, o que desejo é mostrar que seja qual for o formato, é apenas uma questão de opção. Como disse Jesus: “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Marcos 13:31). Já os formatos, estes passarão, como tem sido até aqui!

Rev. Luís Alexandre Ribeiro Branco

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